Julinho: Um pouco de História

Marion Michalski

1958-julinhoO Colégio Estadual Júlio de Castilhos é uma instituição pública de ensino com mais de cem anos de funcionamento e durante este período reflete as mudanças sociais, políticas e econômicas pelas quais a sociedade porto-alegrense e gaúcha vem passando.

“Julinho” como foi apelidado lá pelos idos de 1945, quando em uma partida de futebol pelo campeonato estudantil, os alunos do Julio de Castilhos foram recebidos pela torcida adversária com vaias e com o chamamento diminutivo e pejorativo de “julinho”. Após a disputa calorosa, os alunos do tal “julinho” sagraram-se campeões e, assim o chamamento tornou-se um apelido carinhoso que os alunos adotaram e pelo qual até hoje o estabelecimento é chamado por todos, inclusive na imprensa porto-alegrense.(LIMA, 1990)

A expressão “O Julinho” foi adotada como o nome do jornal do Grêmio Estudantil da escola desde a sua primeira publicação em 1944. Atualmente, os alunos referem-se a si mesmos como estudantes ou alunos do Julinho, mas a forma julianos e julianas ainda aparece e é usada, principalmente pelos ex-alunos e ex-professores.

As origens do Colégio Estadual Júlio de Castilhos estão ligadas à organização da Escola de Engenharia e outros institutos técnicos em Porto Alegre do final do século XIX.

Em 1900, foi criado um curso preparatório sob a coordenação dos professores engenheiros João José Pereira Parobé e Cherubim Costa para os candidatos à Escola de Engenharia e a outras faculdades, chamou-se “Gymnásio do Rio Grande do sul”. Entre 1900 e 1902, assume o Ginásio o primeiro diretor, o Dr. Manoel Theóphilo Barreto Vianna que era deputado estadual, engenheiro militar, professor da escola militar de Porto Alegre.

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Julinho em construção na UFRGS

Em 1906, é inaugurado o prédio na Av. João Pessoa ( local da atual Faculdade de economia da UFRGS) em construção com um estilo eclético, com influencias arquitetônicas da renascença alemã (segundo algumas fontes) e do “art noveau” (segundo outras). O que devemos destacar aqui é que naquele prédio passaram a estudar várias gerações de porto-alegrenses e de alunos vindos do interior do estado em busca de uma educação de qualidade que os qualificasse para profissões ditas de “elite” como as de engenheiros, médicos e outras.

Em 1908 a Escola de Engenharia presta homenagem a Júlio de Castilhos falecido em 1903 e o Ginásio passa a chamar-se “INSTITUTO GINASIAL JÚLIO DE CASTILHOS” que  oferecia cursos primário e ginasial, com três e seis anos, respectivamente, e incluía em seu currículo artes manuais e instrução militar. Nesse momento, o objetivo da Escola seria “preparar os meninos para a vida prática dando-lhes tal educação que os habilite a seguir a carreira que preferirem, com conhecimentos sólidos e práticos, e não com a educação literária, defeituosa e incompleta, dada em geral pelos ginásios…” (HEINZ, 2009)

Havia naquela época uma preocupação muito grande com o ensino técnico-profissional e o governo do estado com influencia positivista financiou a construção e a manutenção destas escolas.

Em 1930, o Instituto Ginasial desliga-se da escola de engenharia e passa para a Universidade Técnica do rio grande do Sul, adquirindo maior autonomia.

Em 1936, seguindo uma política do governo estadual o Instituto passa a ser extinto, pois todos os cursos equivalentes ao ginasial passariam aos cuidados das escolas particulares.

Em 1939, é reaberto como escola pública, sofrendo algumas modificações e recebe o título de “Colégio Padrão do Estado” coordenando os colégios Anchieta, Rosário, Bom Conselho e Sevigné.

Em 16 de novembro de 1951, o prédio do Julinho no centro de Porto Alegre foi destruído por um incêndio até hoje não esclarecido, que o obrigou a funcionar durante sete anos no prédio do Arquivo Público da cidade. Deste incêndio, restaram apenas os grifos-leões e o busto de Júlio de Castilhos que se encontram no saguão do prédio atual que foi inaugurado em 1958.

Os exames finais daquele ano foram realizados nas dependências do Colégio Militar e do Instituto de Educação. O Instituto Ginasial Júlio de Castilhos passou a funcionar durante alguns anos no prédio do arquivo público do estado na Rua Riachuelo.

Em 29 de junho de 1958 é inaugurada a primeira parte do novo prédio na Av. Piratini, nº 76.  O gigante de arquitetura modernista projetado por Demétrio e Enilda Ribeiro tem sua estrutura sustentada por pilares e paredes envidraçadas o que lhe confere certa leveza. O amplo saguão iluminado integra o colégio ao espaço da cidade. A mesma função cumprem as largas sacadas que se estendem ao longo dos três andares. A praça, as ruas e prédios em volta parecem fazer parte do ambiente do colégio.

O próprio arquiteto referiu que “ao pensar uma escola, ele deveria pensar o mundo da cultura e da produção da cultura e esta não poderia ser produzida fora da realidade, portanto as antigas escolas voltadas para dentro de seus muros e pátios como eram comuns, não serviam” e que “ao pensar o Julio ele disse que a Escola deveria ser voltada para fora, pois ao preparar pessoas e cidadãos eles seriam agentes de transformação e só poderiam atuar na realidade se a conhecessem e também aberta para que o mundo entrasse por suas aberturas, sacadas e janelas o que impediria que seus usuários parassem no tempo e cristalizassem suas opiniões, pois o mundo estaria na porta da sala de aula exigindo mudanças”

Nestes mais de cem anos, o colégio Júlio de Castilhos – o Julinho – caracterizou-se por ser um centro gerador de cultura e formador de consciência. Aqui, organizou-se a parir de 1943 o GEJC (Grêmio Estudantil Júlio de Castilhos) um das mais combatidos e atuantes entidades estudantis secundaristas do Rio Grande do Sul.

Em 1947, foi fundado pelo então aluno Paixão Côrtes o DTG (Departamento de Tradições Gaúchas) que atualmente, encontra-se desativado, mas este acontecimento é lembrado todos os anos na data de 07 de setembro quando o colégio recebe uma centelha da chama da pátria, que a partir daí é denominada Chama Crioula e fica acessa até 20 de setembro no saguão da escola.

Em 1947, também foi fundado o Centro de Professores que desde então tem atuado fortemente em questões importantes para o magistério.

Em 1960 é criada a Banda Marcial Juliana, que encerrou suas atividades em 1972 e foi reativada por ex-alunos integrantes da Banda, em 2006, como Associação da Banda Marcial Juliana. Hoje é muito premiada e reconhecida, funcionando como uma verdadeira escola de música.  http://www.bandamarcialjuliana.com.br/

Em 1979, o grupo ecológico organizado por alunos e apoio de professores denominado Kaa-eté (Mata Virgem) foi organizado e teve forte atuação na comunidade na época, mas no momento esta desativado.

Em 2000 Surge a Fundação de Apoio ao Colégio Júlio de Castilhos formada por professores e alunos e ex-professores e ex-alunos, cuja finalidade maior e permanente é a de colaborar no desenvolvimento e aprimoramento do ensino do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, auxiliando nesse sentido seus professores, alunos e funcionários.  http://fundacaojulinho.wixsite.com/fundacaojulinho

Em 2006 a banda ressurgiu com o apoio do Diretor da Escola professor João Alberto Figueiró e da Fundação de Apoio ao Colégio Estadual Júlio de Castilhos de Porto Alegre, juntamente com o trabalho e recursos obtidos de um grupo de ex-integrantes da banda, ex-alunos e simpatizantes (Associação da Banda Marcial Juliana) que a mantêm, desenvolvendo um trabalho de inclusão social na escola através do ensino da música (Musical Juliana). Entre os anos de 2009 e 2016, sob a batuta do maestro Vainer Ramos, acumulou oito títulos máximos, nas duas associações estaduais (AGB e FEBARGS), conquistando o troféu Banda Ouro,  um sul-brasileiro (CNBF) e um Nacional (ABMF).

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Júlio de Castilhos – Patrono

Outro diferencial do colégio são as oficinas de educação artística onde os alunos tem a oportunidade de escolher entre desenho, escultura, pintura, teatro, cerâmica ou gravura. Além dos times de vôlei, futsal e futebol que se destacam em competições no cenário das escolas de ensino médio do estado.

Em 2013  foi criado o Grupo de Robótica.  Alunos oriundos de escolas municipais trouxeram o projeto de Robótica para o “Julinho”, onde foi acolhido,  recebendo apoio da Direção e da Fundação. No mesmo ano conquistaram o segundo lugar no Campeonato Brasileiro.  Atualmente representam o Colégio em eventos e competições.

O “Julinho” ou Colégio Estadual Júlio de Castilhos (como é denominado atualmente) proporciona contatos sociais dos mais diversos e isso vem a ser um diferencial desta escola e que necessariamente leva a um amadurecimento e ao aprendizado da tolerância e da solidariedade. Além disso, seus membros sempre assumiram uma postura de não submissão a ideologias, autoridades e normas que estejam contra os direitos humanos e o processo democrático.


Bibliografia

  • HEINZ, Flávio M. Positivistas e republicanos: os professores da Escola de Engenharia de Porto Alegre entre a atividade política e a administração pública (1896-1930). Revista Brasileira de História.São Paulo, vol.29, no.58, dec.2009. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882009000200002&lng=en&nrm=iso&tlng=en>
  • LIMA, Otávio Rojas. (Org.). Memórias do “Julinho”: Colégio Estadual Júlio de Castilhos 1900 – 1990. Porto Alegre: Sagra, 1990.
  • MICHALSKI, Marion. Identidade do aluno do Julinho:Liberdade e Diversidade no Ensino Médio.. Porto Alegre: Fundação de Apoio ao Colégio Julio de Castilhos, 2010.
  • CONHECENDO o Julinho (texto de uso interno dos professores de história da escola)
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